13º dia de peregrinação na Via Francigena

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Via Francigena – De Lucca à San Miniato Basso (09/05/2015)

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Porta Elisa, Lucca.

Acordamos às 09:00 horas, e logo caímos na estrada para concluir mais um trecho de nosso trajeto pela Via Francigena. Como havíamos falado, o galo iria fazer sucesso nas cidades grandes, e em Lucca não seria diferente. Quando saímos do albergue, começamos a pedalar pelas vias estreitas do centro de Lucca, e como o haviam muitos turistas nas ruas, o galo foi acionado muitas vezes. Ao ouvirem o cântico do galo, o povo abria caminho rapidamente. Mais à frente, um grupo de turistas alemães riram bastante ao ver o galo em ação.

Lucca é uma cidade fortificada por muros que datam de 200 a.C., no entanto as suas fortificações não tiveram um cunho estritamente militar como costumeiramente pode-se imaginar. Segundo alguns historiadores, os seus muros foram concebidos para deter as cheias do rio Serchio. O primeiro registro desta cidade ocorreu em 89 a.C., feito por Tito Lívio, que a mencionou como parte da República Romana desde 218 a.C.. Indícios arqueológicos apontam que a cidade se originou a partir de uma colônia Lígure, situada nos limites do território Etrusco, do qual mais tarde passou a fazer parte.

Em 1805, Napoleão Bonaparte conquistou Lucca, declarando a sua irmã, Elisa Bonaparte, como Rainha da Etrúria – região onde Lucca estava inserida. Apenas em 1847, Lucca perdeu a independência, voltando ao domínio do Estado italiano. Durante a idade média, Dante Alighieri, escritor de A Divina Comédia, fez referência em seu livro a grandes famílias que detinham direitos administrativos em grandes quantidades de terras nesta região. E foi lá também que ele se manteve exilado por um tempo. Portanto, Lucca é, sem margem de dúvida, uma cidade repleta de histórias.

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Hora do almoço.

Ainda em Lucca, tomamos um breve e revigorante cappuccino acompanhado de alguns doces e salgados num dos inúmeros cafés situados em suas ruas estreitas e, por suas vias históricas e repleta de turistas, seguimos nossa viagem. Sabíamos que em Lucca muitas coisas haviam ficado para trás sem que as conhecêssemos, dentre estas, as suas muralhas e algumas igrejas milenares, mas seguimos contentes em nos aproximar cada vez mais de Roma. Saímos de Lucca pela porta Elisa e seguimos o curso da Strada Provincial Romana e SP61, que nos levaria até Alpopascio. Por volta das 12:30 horas, fizemos uma breve parada para o almoço. Ficamos ao lado da Chiesa di San Michele Arcangelo, que data do século VIII, situada em Antraccoli, ainda nas proximidades de Lucca. Comemos uma tigela de frutos do mar, acompanhado de algumas cervejas, que foram comprados no supermercado EKOM Discount Alimentare. Até o nosso galo se refrescou e lubrificou a sua goela com um gole de cerveja, afinal, além do calor que fazia, ele havia trabalhado muito nos últimos dias.

Habitada desde a época Romana, Altopascio teve uma grande importância para os peregrinos da Via Francigena. Nesta cidade, foi construído o hospital de Altopascio para prestar assistência aos peregrinos da Via Francigena. Estima-se que a sua construção date de 1084. Segundo reza a tradição, o hospital foi fundado por doze cidadãos de Lucca. Sua importância para a Via Francigena foi eternizada pelas palavras do rei da França, Philippe Auguste, que o citou como “O Hospital, por excelência“, em 1191. Com os relevantes serviços prestados aos peregrinos, uma ordem de cavalaria religiosa sob o nome de Cavalieri del Tau, ou Cavaleiros do Tau, surgiu com o objetivo de cuidar dos peregrinos, promover a conservação, manutenção e construção de estradas e pontes da Via Francigena. De Autopascio, esta ordem de cavaleiros se espalhou por toda a Europa, chegando a França, Inglaterra, Bavária e Espanha. Em 1459, o Papa Pio II, dissolveu a Ordem dos Cavaleiros do Tau, no entanto, ela resistiu até 1588, quando se fundiu à Ordem dos Cavaleiros de Saint Stephen.

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Rua de Altopascio.

A estrada por aquelas bandas era melhor que a de alguns dias atrás, pois pelo menos possuía acostamento. Quando chegamos à Altopascio, paramos para comprar algumas garrafas de águas e isotônicos no Bar Ristorante del Porto. Na frente do bar, uns três senhores conversaram conosco. Um deles havia sido ciclista profissional e havia ganhado muitos prêmios na época em que competia no circuito profissional. Eles se mostraram solidários à nossa peregrinação e ficaram surpresos pelo fato que de havíamos iniciado em Saint-Oyen, no Vale de Aosta, a nossa jornada. Em nossa passagem pelo centro de Autopascio, mais precisamente na via Cavour, nos deparamos com uma feira repleta de produtos locais, e lá compramos um pacote de um biscoito amarelo bem saboroso, típico da região de Autopascio. Na barraca onde compramos os biscoitos, trabalhavam pai e filho, e tudo que havia à venda era fruto do trabalho de sua família em uma pequena propriedade nos arredores de Altopascio. Assim como muitas outras pessoas em momentos anteriores, eles ficaram surpresos ao ver três brasileiros de bike a percorrer a Via Francigena. Eles nos desejaram um bom caminho e seguimos viagem saboreando os biscoitos.

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Torre do relógio em Altopascio.

Naquela tarde, o calor e o mormaço já começavam a incomodar. O que nos aliviou um pouco foram as vegetações altas na beira da estrada e algumas construções que proporcionavam boas sombras. Fora isso, não havia nada para nos proteger do sol escaldante. Nos lugares onde não havia vegetação, a ordem era seguir em frente. As paradas eram pontuais e apenas para um breve descanso, reidratação ou ingestão de algum alimento. Embora tenha sido cansativo este dia, não enfrentamos grandes desníveis altimétricos ao longo do nosso percurso. Após Altopascio, passamos por inúmeros vilarejos e cidades ao longo da rodovias SP61 e SP11, tais como Nardi-palandri, Chimenti, Luigioni, Urbano, Le Vedute, Taccino, Paladina e Fucecchio. Após esta última cidade, seguimos pela rodovia SR436, que nos levou até a rodovia SS67, onde, por volta das 17:30 horas, chegamos ao destino final daquele dia, a cidade de San Miniato Basso. Não demoramos muito a encontrar o albergue Fraternitá di Misericordia (Piazza Vicenzo Cuoco). Como no albergue de Lucca, o acolhimento era efetuado por profissionais de uma espécie de pronto socorro ou SAMU. Os quartos estavam localizadas na parte lateral deste prédio, entre um heliponto e a Cappella della Misericordia. Neste albergue, o pagamento não era obrigatório, ou seja, aceitava apenas ofertas dos peregrinos. Fomos bem recebidos e muito bem tratados. E este foi mais um dos muitos albergues por onde dormimos que não encontramos peregrino algum. Recebemos mais um carimbo em nossas credenciais e após guardarmos as coisas e tomarmos banho, saímos para dar uma volta na cidade e comprar algo para comer. Após andar por alguns lugares, encontramos uma pizzaria na Viale Guglielmo Marconi, compramos algumas pizzas e levamos para comer no conforto do albergue.

Muito embora não tivéssemos passado por grandes elevações altimétricas, conseguimos avançar apenas 40 km neste dia e os efeitos da pedalada sob o intenso sol da Toscana foram sentidos em nossos corpos, o que contribuiu por deixar o nosso moral em baixa, mas nada que um sono revigorante pudesse resolver.

Neste dia, não efetuamos gravação de vídeo.

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