14º dia de peregrinação na Via Francigena

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Via Francigena – De Miniato Basso à Colle di Val d’Elsa (10/05/2015)

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Típica propriedade Toscana.

Mais uma vez saímos tarde. Desta vez, por volta das 09:30 horas. Entregamos a chave do albergue e partimos em direção à Siena. De San Miniato Basso, seguimos pela rodovia SS67 até a altura da rodovia SS429. Fizemos uma parada num vilarejo cortado pela rodovia SS67, onde compramos uns cappuccinos e alguns salgados para tomar café. Tomamos o nosso café da manhã numa praça que ficava quase em frente ao estabelecimento. Ao percebermos que havia uma fonte de água potável na praça, aproveitamos para completar os nossos cantis e economizamos na compra de água. Sem mais porque estar ali, seguimos adiante. O sol ainda não estava incomodando, mas pelo jeito logo iria incomodar, pois o céu estava claro e sem nenhuma nuvem. E, em se tratando da Toscana, isso não seria um bom sinal. Sem dúvida alguma, estávamos correndo contra o tempo, visando chegar dentro do prazo em Roma, e corríamos mais ainda do sol, pois a medida que as horas avançavam, o sol tendia a ficar mais quente. Um dos grandes desafios que tínhamos pela frente não estava relacionado à altimetria do terreno, mas relacionado ao fator sol. Mas não era hora de reclamar, e sim de seguir em frente em busca de dias melhores. Afinal, é assim que é a vida, não, é? Já diziam Milionário e José Rico em uma de suas mais populares músicas: “Nesta longa estrada da vida, vou correndo e não posso parar.” Pois é! Embora houvesse uma longa estrada à nossa frente, não tínhamos interesse em ser campeão e muito menos em chegar em primeiro lugar. Mas talvez competíssemos com o sol… apenas com ele mesmo e mais ninguém.

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Ciprestes enfeitam a entrada das propriedades da Toscana.

Às margens das rodovias podíamos ver muitos plantios de uva e de oliveiras. Cada região ou país tem uma planta que a caracteriza. Em nosso Estado, Pernambuco, por exemplo – mais especialmente no litoral –, os coqueiros imperam absolutos ao longo de toda a faixa marítima, e são considerados um verdadeiro símbolo, tanto que foram eternizados no hino de Pernambuco, ora cantado por Alceu Valença. E assim como em Pernambuco, a região da Toscana tem uma árvore que a caracteriza muito bem, uma árvore símbolo desta pitoresca região italiana, o cipreste. Embora em muitas rodovias por onde passamos não contassem com um acostamento adequado, pedalávamos tranquilamente sem sermos importunados pelos carros, no entanto não abusávamos da boa vontade dos motoristas. Nas rodovias, sempre encontrávamos muitos ciclistas treinando com as suas bikes de alto desempenho. E neste dia, encontramos muitos deles. Parecia até haver algum evento ciclístico na região, mas o fato de ser domingo deve ter contribuído para isso. Nos primeiros quilômetros da rodovia SS429, haviam árvores plantadas de um lado e de outro, e nos trechos mais longos e retilíneos, formavam um corredor envolvido pelas suas copas. Mais adiante, em Cambiano, paramos para comprar mais água num pequeno bar chamado La Cuccagna. A poucos metros dali, havia um supermercado Penny Market, e resolvemos comprar alguns mantimentos e mais água, pois nos supermercados os preços costumam ser mais em conta que nos bares.

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Plantio de uvas e oliveiras.

A partir dali, atravessamos a ponte sobre o rio Elsa e seguimos pela via Niccolo Macchiavelli, um cidadão italiano que ficou conhecido como Maquiavel, e que foi um grande poeta, historiador, escritor e diplomata italiano, o qual escreveu uma renomada obra de literatura intitulada O Príncipe. Depois, seguimos pela SP132, onde mais uma vez cruzamos o rio Elsa. Aquela altura, ficamos na incerteza se deveríamos seguir por aquela rodovia, mas perguntamos a um senhor que passava numa bicicleta, a direção de Siena. Ele nos confirmou estar no caminho certo, e logo seguimos em frente. O sol já estava bastante quente, mas mesmo assim não nos demos por vencidos. Mudamos novamente de rodovia, agora já estávamos pedalando pela SR429 e depois em pequenas vias secundárias, que nos levaram até a cidade de Certaldo. Compramos o nosso almoço no supermercado Coop, pedalamos mais um pouco em busca de um lugar sossegado para comer e encontramos um praça situada à via Luigi Galvani, ainda na cidade de Certaldo. Para o almoço, tínhamos galeto, um pedaço de lasanha, umas cervejas típicas da região da Toscana e biscoito como sobremesa. Ainda tínhamos comprado algumas Crodino (um típico aperitivo italiano) para provar antes do almoço, mas não gostamos.

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Parada para o almoço.

Após o banquete no banco da praça, seguimos viagem pela rodovia SP95, passando por inúmeras propriedades com plantio de uvas e oliveiras. A partir daí, o caldo engrossou, pois pegamos uma subida num calor escaldante. Os locais para se abrigar do sol e descansar um pouco eram inexistentes, mas com fé e determinação conseguimos vencer o sol e aquela subida para chegarmos à San Gimignano. Paramos numa pequena loja de conveniência para comprar água e refrigerante. Quando cruzamos uma das entradas da cidade, na via dei Fossi, já passava das 17:00 horas. Ficamos muito fascinados com a sua arquitetura medieval, limpeza e organização. As suas origens remontam ao ano de 929, onde apareceram as primeiras menções ao seu nome. Nesta época, mais precisamente entre os anos 990 e 994, Sigerico, arcebispo de Canterbury, passou por estas terras e marcou em seu diário como o estágio XIX. Ele retornava à Inglaterra após a sua peregrinação até Roma. A cidade de San Gimignano é caracterizada pelos seus muros que a rodeiam, e suas altas torres que remontam ao período medieval. Em seu apogeu, chegou a ter 72 torres, hoje restam apenas 16 delas. Durante a segunda guerra mundial, a cidade foi violentamente bombardeada pelos americanos durante um período de dez dias. Em decorrência dos bombardeios, a grande torre foi destruída. Ao final da guerra, uma nova torre foi doada pelo povo da União Soviética e posta da grande torre.

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Piazza della Cisterna, San Gimignano.

Embora seja grande, comparado a nossa insignificância, o mundo muitas vezes pode parecer pequeno. E não é que ele realmente é pequeno! Pois é! No começo de nossa viagem, para ser mais exato no primeiro dia, quando estávamos em Aosta para consertar a minha bike, o cara que havia me atendido na loja Cicli Lucchini, havia acabado de passar pela gente, e quando nos viu, deu meia volta e veio falar conosco. Ficamos bastante surpresos e alegres com a consideração que ele teve conosco. Ele estava acompanhado de sua namorada e havia aproveitado alguns dias de folga para fazer uma cicloviagem com ela. Nos despedimos deles e fomos atrás de carimbar as nossas credenciais. Pelo meio do caminho, o galo cantou para avisar os desavisados sobre a nossa chegada. Fizemos um breve vídeo na Piazza della Cisterna e tiramos algumas fotos do local. Ao ver as bandeiras do Brasil, um casal de brasileiros nos abordou para saber o que fazíamos por ali. Eles foram bem amistosos, e lhes explicamos a nossa jornada pela Via Francigena. E, como as demais pessoas que falaram conosco, ficaram bastante surpresos com a nossa força de vontade e coragem.

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Ruas movimentadas de San Gimignano.

Após algum tempo apreciando aquele pitoresco lugar, seguimos viagem, pois já estava ficando tarde. Decidimos dormir em Colle di Val d’Elsa, pois provavelmente não iríamos chegar a tempo de encontrar vagas num albergue, caso fôssemos para Siena. Por se tratar de uma cidade pequena, Colle di Val d’Elsa seria melhor para encontrar albergue. Saindo de San Gimignano, pegamos um bela descida pela rodovia SP1, e novamente a minha bike e a de Fagner foram levadas ao limite da velocidade. Naquela estrada não havia acostamento e descíamos no meio da pista mesmo, mas como íamos bem rápidos, os carros não se incomodavam. Redobrávamos a atenção nas curvas para não cruzar a contra mão e colidir de frente com algum carro. Tudo foi muito divertido e mais uma vez Fagner perdeu a batalha das pistas. Sua bike havia ficado em segundo lugar no ranking de velocidade em ladeira abaixo. No meio do caminho, enquanto eu descia a toda velocidade, um carro passa ao meu lado, e uma senhora aponta para a parte traseira da minha bike e falou alguma coisa que não escutei. Diminuí a velocidade para verificar o que havia de errado, e percebi que a minha toalha e meu casaco haviam sumido de lá. Devido ao intenso atrito do vento, eles foram arremessados para trás. Fiquei imaginando que algo ruim pudesse ter acontecido com Fagner, que vinha logo atrás de mim, mas graças à Deus nada havia acontecido a ele e nem a Elizabeth. Ao encontrá-lo, ele me disse que havia gritado para que eu parasse para ajeitar o alforje, mas eu não escutei e segui em grande velocidade ladeira abaixo. Quando as coisas voaram do meu alforje, ele ainda passou por cima do meu casaco e de minha toalha, mas logo parou para pegá-los. De acordo com o velocímetro da minha bike, a velocidade máxima que eu atingi durante aquela descida foi de 61,5 Km/h, enquanto que Fagner conseguiu atingir a marcar de 60,5 Km/h.

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Entrada do Convento di San Francesco.

Com tudo em ordem, ficamos mais cautelosos e continuamos o nosso trajeto. Deixamos a rodovia SP1 para trás e pegamos uma bifurcação pela rodovia SP36, passando por Bibbiano e Borgatello para finalmente chegarmos ao nosso destino final. Após algumas idas e vindas, conseguimos encontrar o Convento di San Francesco (via San Francesco, 4), local onde passamos à noite. Embora não fosse do tipo de albergue que aceitasse donativo, o preço cobrado foi muito baixo. O lugar era amplo e com muitos quartos, no entanto, mais uma vez não havia ninguém em todo aquele lugar, exceto nós três. O nosso quarto era grande e bem aconchegante, e pela janela do quarto, podíamos ter uma vista de parte da cidade. À noite, ainda saímos para comer algo e conhecer um pouco da cidade.

Embora um pouco cansativo, o dia havia sido bastante proveitoso e carregado de muitas emoções. Terminamos o dia tendo percorrido 61 km em nossa jornada, o que contribuiu para deixar o nosso moral em alta novamente.

Confira abaixo os vídeos relacionados a este dia.

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