Viagem de Recife à Milão: Inicia-se a nossa peregrinação pela Via Francigena

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Via Francigena – Viagem de Recife (PE) à Milão (24/04/2015)

Da esquerda para a direita: Elizabeth, Osvaldinho (Oz), Fausto (eu), Marcondes (pai), Maria José (Mãe) e Fagner.

Da esquerda para a direita: Elizabeth, Osvaldinho (Oz), Fausto (eu), Marcondes (pai), Maria José (Mãe) e Fagner.

Era dia 24 de abril de 2015, noite de céu claro e temperatura agradável. Como de costume, saímos acompanhados de nossos familiares e amigos até o aeroporto. Essa rotina já havia se tornado quase que um ritual em todas as viagens que eu e Elizabeth fizemos. Pena que nem todos estavam ali presentes. Pois, infelizmente, Elizabeth havia perdido sua mãe há poucas semanas. No entanto, Elizabeth não desistiu do nosso projeto e resolveu viajar conosco.

Naquele momento, a nossa jornada de peregrinação ao longo do trato italiano da Via Francigena acabava de ter início, mas ainda sem grandes esforços, pois estávamos a caminho do aeroporto. Lá chegando, não demorou muito a nossa partida. O que mais nos doía era o fato de ter que deixar o nosso filho, Osvaldo Bruno (Oz), mais um vez, ficando tantos dias longe dele. Ele chorou um pouco, mas depois se acalmou. Num futuro próximo ele irá entender o motivo de nossa peregrinação e, talvez, cair na estrada em busca de resgatar e reviver os passos (pedaladas) que seus pais e tio estavam prestes a vivenciar.

Recebendo o apoio dos familiares no saguão de embarque do Aeroporto Internacional do Recife.

Recebendo o apoio dos familiares no saguão de embarque do Aeroporto Internacional do Recife.

Algumas horas mais tarde, já no dia seguinte, havíamos chegado em Lisboa, Portugal, onde aguardamos o próximo voo até Milão. Até aí sem grandes problemas, tudo havia transcorrido dentro do planejado. Ao chegarmos em Milão, pecamos em não ter perguntado, no setor de informações do aeroporto de Malpensa, a respeito de meios de transporte (ônibus e metrô) mais baratos até o centro de Milão. Estávamos com nossas bagagens e as bicicletas, estas últimas acondicionadas em malas bike, o que acabava por ser um grande inconveniente para locomoção. Por isso decidimos pela conveniência e facilidade, optamos por pegar um táxi. Afinal, estávamos cansados e querendo chegar o mais breve possível ao nosso destino. Esta escolha nos fez ter um gasto adicional não previsto em nosso orçamento de viagem. Mas tudo bem, havíamos chegado ao nosso destino, a Via Abetone, 16, Calvairate. Só que para a nossa surpresa, o proprietário do apartamento, o qual havia sido reservado pelo site Airbnb, não estava no local e não conseguíamos entrar em contato com ele, pois não dispúnhamos de internet em nossos celulares naquele momento.

Momentos antes, ainda no Aeroporto de Malpensa, quando tínhamos retirado as bagagens da esteira e aguardávamos as bicicletas noutra porta, eu havia entrado em contato com o proprietário do apartamento, o Sr. Stefano di Martino, via mensagens de texto pelo App do Airbnb – que foram simplificadas pelo uso de tradutor – e ele me informou que estaria nos aguardando.

Mas almas bondosas sempre surgem em momentos difíceis, e naquela situação que nos encontrávamos não seria diferente. Tudo que queria naquele momento era achar um sinal aberto de internet para entrar em contato com ele, mas até aí nada, sem sucesso. Daí, o que fazer? Fui apelar por ajuda de pessoas que pela rua passavam, e uma pessoa que acabei abordando, um cidadão marroquino, que acabara de descer de seu apartamento, acabou me ajudando. Ao me ver, a primeira coisa que ele falou foi: Salaam Aleikum – expressão de cumprimento árabe, que significa Que a paz esteja sobre vós. Fiquei meio ressabiado em pronunciar a resposta, Alaikum As-Salaam, que significa E sobre vós a paz. E com algumas frases em inglês, pedi-lhe ajuda. Mostrei-lhe o papel da reserva com o telefone e nome do Stefano, e lhe perguntei se poderia fazer uma ligação do seu celular para o celular do Stefano para informá-lo que estávamos à sua espera no endereço marcado na reserva. E sem muitas cerimônias, ele efetuou a chamada para o Sr. Stefano.

Não entendi muita coisa do que o marroquino falou. Eles haviam conversado em italiano. Agradeci-lhe, e acabei voltando à frente do apartamento, onde Elizabeth e Fagner me aguardavam. Ao chegar, não hesitamos em tocar as campainhas dos apartamentos, na esperança que alguém aparecesse para tentamos resolver a nossa situação. Muitas campainhas foram apertadas, mas ninguém aparecia. Fagner foi mais ousado e tentou contato visual com algum morador através das janelas situadas nos apartamentos térreos, e quando colocou a sua cabeça em uma delas, uma senhora se apresentou brevemente e começou a disparar frases que nada entendíamos. Em seguida, naquele mesmo apartamento, a porta se abre e um sujeito careca, o qual não recordamos o seu nome, nos acompanha educadamente até o lado de fora do condomínio.

Explicamos-lhes a nossa situação, e ele nos disse ser amigo do Stefano. Quanto a reserva no apartamento, ele nos informou que não estava disponível. A partir daí, ficamos ser saber o que fazer e para onde ir. E entre uma palavra e outra, quando menos esperávamos, surge o marroquino – de minutos atrás – com o celular na mão. Do outro lado da linha estava o Sr. Stefano, que trocou algumas palavras comigo e logo em seguida com o seu amigo. Confesso não ter entendido muita coisa, mas seu amigo tratou de esclarecer da melhor maneira possível, misturando italiano, inglês e mímica para que o entendêssemos bem, ele nos informou que deveríamos nos dirigir a um outro apartamento do Sr. Stefano, situado na Via Puntalicosa, 18-A, no lado posterior da cidade. Ele ainda nos fez um favor em solicitar dois táxis para nos levar aquele endereço. Por coincidência, um dos dois taxistas que chegaram, já havia morado no Brasil e falava muito bem o nosso idioma. Com este contratempo, tivemos mais um gasto adicional para nos deslocarmos até aquele novo endereço.

Interior do apartamento em Milão.

Interior do apartamento em Milão.

Aquela que deveria parecer uma chegada tranquila e sem muito estresse para possibilitar um breve e rápido passeio no centro de Milão, realmente não havia sido. Já eram quase 21:00 horas quando finalmente chegamos em nosso lugar de pernoite. Recebemos as chaves do Sr. Stefano, alojamos os nossos pertences e bicicletas em seu apartamento, e rapidamente saímos em busca de algo para comer. Estávamos casados, famintos e com sono.

Após caminharmos vagamente por algumas ruas, encontramos uma pizzaria de um imigrante egípcio, e acabamos por matar quem tentava nos matar: a fome. De barriga cheia e ânimo renovados, prontamente fomos dormir, pois o dia seguinte era aguardado ansiosamente por nós.

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