7º dia de peregrinação na Via Francigena

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Via Francigena – De Pavia à Orio Litta (03/05/2015)

Proprietários do albergue em Pavia.

Proprietários do albergue em Pavia.

O dia mal acabava de começar, e com ele mais do mesmo era esperado. O começo do dia era meio chato, pois a rotina de arrumação dos alforjes era bastante chata, ainda mais quando a preguiça era insistente em nos deixar partir. Muitas vezes pedíamos um ao outro mais cinco minutos de sono, e esses cinco minutos acabavam se sucedendo em mais outros cinco minutos e assim por diante, até que alguém tomava a iniciativa de levantar, encorajando os demais a acordar. A rotina não era nada boa, mas ao cairmos na estrada tudo passava a ser bem prazeroso, pois a cada centímetro percorrido uma nova realidade era descoberta. Considerávamos, portanto, rotina todo aquele trabalho chato de arrumação/preparação do dia-a-dia. O simples ato de pedalar por paisagens/lugares desconhecidos se revelava de uma natureza imensuravelmente prazerosa.

Além dos alforjes, que necessitavam ser arrumados, e das roupas que não secaram devido a problema na centrifugação da máquina de lavar, o pneu traseiro da bike de Elizabeth estava furado e necessitava ser trocado. Logo o traseiro, o mais complicado e chato de tirar! Consertamos o pneu, arrumamos os alforjes, tomamos um pequeno cappuccino com biscoitos, gentilmente oferecidos pela Sra. Ângela. Com tudo pronto e já de partida, pedimos-lhes para tirar umas fotos conosco. Passada a sessão de fotos, a Sra. Ângela, num gesto de bondade, nos ofereceu água e suco para que levássemos. Tratamos de não fazer desfeita a ela, e aceitamos apenas a água, pois ela seria o bastante para nós.

Brevemente nos despedimos do Sr. Enrico e da Sra. Ângela, pois era hora de seguir a nossa jornada em direção à Roma, cidade eterna, como assim é conhecida. Neste dia saímos com a pretensão de chegar à cidade de Piacenza, mas infelizmente não conseguimos alcançá-la neste dia. Já estava um pouco tarde, cerca de dez e meia, quando de fato saímos do albergue, e provavelmente esse atraso contribuiu para que não chegássemos até o nosso destino pretendido, a cidade de Piacenza. O bairro da cidade de Pavia, onde passamos à noite, se chamava Borgo Ticino. Pavia é uma cidade média localizada a uns 30 quilômetros de Milão, e é cortada pelo rio Ticino, afluente do rio Pó, que é considerado o maior da Itália.

Sem saber qual direção tomar, procuramos voltar para à rodovia SS35 para atravessar a ponte e seguir com direção ao centro, onde iríamos nos guiar pelas placas de sinalização. Ainda do lado sul da cidade, eu vim a tomar um tombo na cabeceira da ponte que segue pela rodovia SS35, mas nada muito sério. Só um rasgão na minha roupa, seguido de um leve arranhão. Ainda na mesma rodovia, seguimos até à Piazzale Minerva, girando à direita para pegar o Corso Camilo Benso Cavour, seguindo pela Via Antonio Giovanni Scopoli, onde mais à frente dobramos na Piazzale Porta Garibaldi. Mais adiante, ao invés de seguirmos pela Viale Partigiani, acabamos cometendo um pequeno erro de percurso quando seguimos pela Viale Resistenza até pararmos na Lungoticino Sforza, quando avistamos a Ponte Coberta. Fagner solicitou informação a algumas pessoas sobre como chegar até Piacenza. Ao receber a orientação sobre qual caminho pegar, nos reposicionamos e voltamos até a rotatória no final da Viale Resistenza, onde seguimos adiante pela Viale Partigiani, procurando sempre seguir “dritto”, como muitos italianos costumavam nos dizer quando lhe pedíamos informações. E “dritto” fomos, passando pela Viale Montegrappa e Viale Cremona, parando na altura do número 207, no supermercado LD Market, para comprar mantimentos e o nosso almoço, até chegarmos à rodovia SP234.

Seguindo adiante.

Seguindo adiante.

A partir daí não paramos mais, exceto para ir ao banheiro, lanchar e almoçar. O céu estava nublado, o que nos deixava mais dispostos à pedalada. Embora o fluxo de veículos não fosse tão intenso, talvez devido ao fato de ser um domingo, a ausência de acostamento em boa parte da estrada, a deixava bastante perigosa. Passamos pelos territórios das seguintes cidades: Motta San Damiano, Vale Salimbene, Artigianale, Belgioioso, Corteolona, Santa Cristina e Bissone, Mostiola e Mariotto. Logo após Mariotto, alguns metros após a ponte sobre o Rio Lambro, pegamos um trecho da Via Francigena que segue ao longo do curso deste rio. Este trecho é conhecido como a ciclovia do Pó. Seguimos por ela, até nos levar à cidade de Orio Litta. Entramos em Orio Litta pela Via Giuseppe Verdi. Aquela altura, não sabíamos que cidade era aquela, mas ao perguntarmos a duas senhoras que passeavam com os seus cachorros sobre a nossa localização, ela nos confirmou que estávamos na cidade de Orio Litta, e nos mostrou a direção do centro da pequena cidade.

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Mais um carimbo em nossas credenciais.

Ainda era cedo quando chegamos a Orio Litta, cerca de 16:00 horas. Podíamos seguir viagem, mas resolvemos ancorar os “nossos barcos” mais cedo. Seguimos com direção ao centro da pequena cidade, onde Fagner solicitou informações sobre a localização do albergue Cascina San Pietro (Piazza dei Benedittini) em um bar local. O senhor, bastante solicito, acabou levando-o até o albergue, enquanto eu e Elizabeth aguardávamos seu retorno com uma boa notícia. Não demorou muito e ele retornou trazendo boas novas. Havia vaga no albergue! Agradecemos aquele senhor pela gentileza para conosco, e seguimos até o albergue, que ficava a pouco menos de 200 metros de onde estávamos. Fagner falou que a senhora que tomava conta do lugar, e que morava ao lado do albergue, disse que podíamos entrar e nos alojar sem maiores cerimônias. Lá chegando, guardamos as nossas coisas, carimbamos as nossas credenciais e fomos tomar banho. Até aquele momento ninguém havia chegado para nos mostrar o albergue, como faziam outros hospitaleiros nos outros albergues. Não que aquilo fosse ruim, muito pelo contrário, ficamos bastante à vontade. O lugar era bem amplo e possuía ao todo umas dez ou doze camas, sendo a sua estrutura era melhor ou igual a qualquer hotel cinco estrelas. Simplesmente não deixava a desejar em nada. O albergue dispunha de cozinha, dois quartos no campanário e dois no térreo, banheiros no térreo e subterrâneo. Na parte subterrânea, o acesso se dava por elevador.

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Mensagem deixada no livro de visitas.

Na porta principal, não havia chave e qualquer pessoa poderia facilmente entrar naquele lugar. Logo após eu e Elizabeth tomarmos banho, eu acabei percebendo que havia deixado a bolsa com o meu equipamento fotográfico, inclusive o dinheiro, no piso superior. Rapidamente, eu e ela subimos ao piso superior, enquanto Fagner ainda tomava banho no outro banheiro. Ao chegarmos no térreo, a minha bolsa estava onde eu havia deixado,  em cima da mesa da cozinha. Estava tudo em ordem. Com aquele episódio, acabei lembrando do Caminho de Santiago, onde a Sra. Maria, dona de uma pequena pousada em San-Jean-Pied-de-Port, havia nos falado quando lhe indagamos se não havia problema em deixar as bicicletas no hall de entrada da sua propriedade. A nossa preocupação era a porta que permanecia aberta até o último hóspede chegar. A resposta dita por ela foi pronunciada no fluente espanhol: “Aquí no hay robos”. No alberque de Orio Litta, não havia ninguém para nos dizer que ali não havia roubos, mas mesmo assim deu para compreendermos que aquela cidade era pacata demais, e coisas como roubos são uma das menores preocupações dos cidadãos que por lá vivem.

Ao terminar o banho, Fagner pegou o elevador para subir ao térreo, mas acabou apertando o botão errado, o que acarretou o desativação do elevador. Com isso, ele estava preso no subterrâneo. Eu e Elizabeth tratávamos de orientá-lo sobre como contornar aquela situação, mas nada daquilo que dizíamos surtia efeito, e o elevador não dava sinais de que iria se mover de lá. Após alguns minutos, e quando menos se esperava, eis que surge um senhor de terno e gravata, entrando pela porta principal do albergue. Era um indivíduo magro, alto e com feição bastante séria. Chegamos a imaginar que era um segurança ou até mesmo um policial, e que ele havia ido até lá desvido ao acionamento indevido do botão vermelho (botão de pânico) do elevador. Ao chegar, tratou de se apresentar. Seu nome era Pier Luigi Cappelletti, o prefeito da cidade de Orio Litta. Ele falava italiano, francês, inglês e um pouco de espanhol. E a língua espanhola nos ajudou muito no processo de comunicação.

O prefeito de Orio Litta, Sr. Pier Luigi, nos prestigia.

O prefeito de Orio Litta, Sr. Pier Luigi, nos prestigia.

Explicamos-lhe que o meu irmão estava preso no elevador, e ele logo o orientou como sair de lá. Ao saber que éramos brasileiros, ele ficou bastante entusiasmado, pois há muito tempo não passavam brasileiros por aquelas bandas. Resolvido todo aquele problema, perguntamos-lhes se havia algum supermercado aberto nas proximidades, mas ele nos disse que não havia, afinal era um domingo. Ele nos disse que havia uma pizzaria na esquina e que poderíamos comprar lá. Logo, tratou de nos convidar para tomar um vinho mais tarde, às 20:00 horas. Ele tinha um compromisso e não poderia demorar muito ali conosco, por isso prometeu voltar ao albergue mais tarde para tomarmos um vinho e jogar conversa fora.

Vila Litta Carini, Orio Litta.

Vila Litta Carini, Orio Litta.

Com tudo organizado, fomos conhecer um pouco da cidade, e o que mais nos chamou atenção foi a imponente Villa Litta Carini, uma mansão do século XVII, incrustada no meio da pequena cidade. Embora seja aberta ao público, não tivemos oportunidade de conhecê-la, devido ao encerramento do horário de visitação. Mas, somente o fato de estarmos ali, estava valendo a pena. Ainda fizemos um breve vídeo no local, falando sobre a nossa percepção a respeito da Via Francigena. Caminhamos mais um pouco como forma de passatempo. Mais adiante, já na pizzaria, compramos as pizzas e fomos esperar a hora marcada pelo Sr. Cappeletti. O aguardávamos no praça situada à frente do albergue. Não esperamos muito, e logo ele apareceu com uma garrafa de vinho empunhada em uma de suas mãos. Como não havia abridor de vinhos no albergue, ele se prontificou a buscar no bar da esquina. De volta, ele ainda nos trouxe uma cerveja. Conversamos sobre muitas coisas, desde política e economia até futebol. Depois de quase uma hora de conversa conosco e uma garrafa de vinho seca, ele se despediu de nós, desejando-nos uma boa sorte e um bom caminho.

Após a sua saída, ainda ficamos um pouco na mesa jogando conversa fora e saboreando o resto das pizzas, mas não demoramos muito, pois no dia seguinte teríamos mais estrada pela frente. Neste dia, o nosso ânimo foi às alturas, pois nunca imaginaríamos ser recepcionados por uma figura tão ilustre e simples como o Sr. Cappeletti. Ficamos muito surpresos com toda aquela importância que nos foi dada.

O dia havia terminado, e com ele mais uma etapa de nossa peregrinação havia sido concluída. Ao todo percorremos cerca de 45 km neste dia.

Confira abaixo os vídeos relacionados a este dia.

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