19º dia de peregrinação na Via Francigena

Via Francigena – De Sutri à Roma (15/05/2015)

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Anfiteatro Romano de Sutri.

Roma estava alí bem, à espreita. Podíamos sentir a sua presença. Poucas pedalas nos separavam de lá, e para alcançá-la, deveríamos o quanto antes, colocar as pernas para trabalhar. Mas antes de deixarmos Sutri, tomamos uns cappuccinos com alguns salgados num café, situado na praça principal da cidade. Após o café, saímos da cidade em direção à rodovia SR2. Andamos poucos metros e fizemos uma parada para visitar o Anfiteatro Romano de Sutri, que data do século II. Sem dúvida, uma estrutura muito bem preservada. Alguns metros à frente, vimos muitos túmulos escavados na rocha do paredão que se sucedia ao Anfiteatro. Talvez estes túmulos sejam mais antigos que o próprio Anfiteatro, e remontem aos povos Etrusco que viveram nesta região por volta do século 4 a.C.. Seguimos adiante com a nossa jornada e na altura de Vigne Nuove, numa parada de rotina para tomar água e descasar alguns minutos, um senhor nos abordou e começou a conversar conosco. Ao saber que víamos de Saint-Oyen, no Vale de Aosta, e estávamos percorrendo a Via Francigena, ele ficou bastante surpreso com a nossa façanha. Ele nos disse que estava esperando para ver os ciclistas do Giro D’Itália, que logo passariam por alí. E, entre uma conversa e outra, decidimos ficar para ver o evento. O senhor conversou bastante conosco e fez questão que tomássemos do seu vinho. Cerca de duas horas depois, nada dos ciclistas. Como já estava ficando tarde, resolvemos ir embora, mas já era tarde, já que a polícia havia interditado a pista para circulação de qualquer tipo de veículo, inclusive bicicletas. Com isso, não nos restou outra alternativa, senão voltar para o lugar onde estávamos e conversar mais um pouco com o senhor que havíamos acabado de conhecer.

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Um papo rápido com o Sr. de Antonis.

Já havia muitas pessoas no local, inclusive uma brasileira que reside na Itália há muito tempo. Os carros das emissoras e imprensa começavam a passar. Eles seguiam embalados ao som da música Cool Kids, da banda Echosmith. Ouvia-se claramente o refrão: “I wish that I could be like the cool kids, Cause all the cool kids, they seem to fit in. I wish that I could be like the cool kids, like the cool kids.” Sem dúvida, a monotonia havia sido quebrada, e aquele era um sinal de que o primeiro pelotão estava bem próximo. E cerca de quinze minutos depois, eles finalmente estavam passando. Não perdemos a oportunidade para fotografar aquele momento. Há pouco mais de um quilômetro atrás, vinha o segundo pelotão e ao passarem, a pista foi liberada ao tráfego. Agradecemos ao senhor Gianni de Antonnis pela conversa e pelo vinho que nos ofereceu, e seguimos com nossa viagem. Com esta parada, perdemos cerca de duas horas e meia. Dali, procurávamos não parar mais e manter uma velocidade média de 20 km/h. Em relação ao acostamento, as condições da pista não eram das melhores, pois em muitos lugares o acostamento inexistia e em outros o mato tomava conta dele, o que nos forçava a pedalar perigosamente pela faixa de circulação dos veículos.

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Marco Coledan, Giro D’Itália.

Ao longo da rodovia, cruzamos com os vilarejos Settevene e Le Rughe. Mais adiante, já na altura de La Storta, entramos efetivamente na Região Metropolitana de Roma e aproximadamente às 19:20 horas, chegamos na Cidade do Vaticano. Ficamos muito alegres e fascinados com tamanha beleza. Finalmente a ficha havia caído e, portanto, chegávamos ao final de uma jornada emblemática, que levou anos de preparação, e se resumia numa palavra: realização. Naquele momento, realizamos um sonho. Estar alí, havia valido cada esforço, cada gota de suor, cada frustração que havíamos passado nos últimos dias.

O último carimbo em nossas credenciais deveria ser colhido no Vaticano, mas devido ao horário que chegamos não era mais possível. Ainda tentamos falar com os guardas da Guarda Suíça, mas eles nos disseram que apenas no dia seguinte. Aproveitamos para apreciar mais um pouco aquele momento e tirar algumas fotos.

Logo em seguida, fomos em busca do albergue Ospedalle della Divina Provvidenza (via dei Genovesi, 11-B), situada no bairro Trastevere. Depois de muito andar, chegamos na referida rua, mas não conseguimos encontrar o albergue, pois em nossa lista de albergues não havia o número daquele estabelecimento. Perguntamos a algumas pessoas, mas ninguém soube nos informar a sua exata localização. Muitos eram turistas e não sabiam informar nada a respeito. Vencidos pelo cansaço, decidimos que era hora de procurar um hotel ou B&B para passarmos a noite, afinal já passava das 20:30 horas e ainda estávamos na rua. O nosso destino ainda era incerto, mas mesmo assim não desistimos de encontrar um lugar. Confesso que a esta altura da noite, eu já estava bastante enraivecido com aquela situação. Talvez fosse a minha provação, o meu teste de fogo. A cada minuto que se passava, desanimávamos mais e ficávamos sem perspectivas a respeito de um lugar para passar à noite. O relógio já marcava mais de 21:30 horas quando chegamos a Via dei Pettinari, e nos deparamos com uma Igreja (S.S. Salvatore in Onda). Fagner – que estava com mais paciência – sem perceber que a Igreja estava aberta, falou que ela estava fechada, e neste exato momento, uma senhora que vinha saindo de lá, disse que ela estava aberta. Isso tudo num português bem falado. Mas enquanto ele havia ido lá, eu estava mudando os chips do celular para ver a possibilidade de fazer uma chamada para o albergue que não encontramos. Ao mudar os chips, eu consegui realizar uma chamada para aquele albergue, expliquei a nossa solicitação e a pessoa do outro lado da linha disse que tínhamos até às 22:00 para chegar lá, caso contrário iríamos dormir na rua.

Chegada à Praça de São Pedro, Vaticano.

Chegada à Praça de São Pedro, Vaticano.

Não demorou muito, e Fagner trouxe uma boa nova. O padre daquela paróquia, Pe. Gilberto Orsolin, que também era brasileiro, fez questão de nos acolher na sede da SAC (Sociedadè dell’Apostolo Catolico), que ficava a poucos metros dali. Aceitamos o convite e seguimos com ele até lá, mas como eu havia acabado de falar por telefone com o hospitaleiro do albergue, solicitei que o Padre Gilberto falasse com ele e lhe explicasse que havíamos encontrado um lugar para passarmos à noite. Após guardar as nossas coisas, o Padre Gilberto nos convidou para o jantar. Após o jantar, recolhemo-nos aos nossos quartos. No dia seguinte, acordamos bem cedo, pois o Pe. Gilberto iria viajar com uma caravana de fiéis. Agradecemos-lhes por tudo que havia feito por nós e, como era de costume dar uma oferta nos albergues, demos uma oferta como forma de agradecimento. De lá, partimos em direção ao albergue que não havíamos achado no dia anterior. E lá chegando, ficamos sabendo que o acolhimento de peregrinos era a partir da 15:00 horas. E isso significava que não podíamos entrar antes deste horário. O hospitaleiro que no atendeu, carimbou as nossas credenciais, e de lá seguimos para o Vaticano em busca do último carimbo e do Testimonium. E é dentro dos portões do Vaticano onde o Testimonium é confeccionado, numa área considerada restrita, onde apenas peregrinos e demais pessoas devidamente autorizadas têm permissão para entrar. Contudo, uma série de protocolos devem ser seguidos por aqueles que tem a permissão para adentrar aqueles muros e portões sagrados, e que incluem: duas revistas manuais; cadastramento do peregrino; e retenção do passaporte, enquanto durar a visita.

De volta ao albergue, ainda ficamos aguardando o horário de abertura. Mas quando uma outra hospitaleira chegou, ela abriu uma exceção para nós, e nos colocou para dentro. Segundo a tradição, os peregrinos que lá chegam devem participar da cerimônia de lava pés. E a nossa seria realizada no final da tarde daquele dia. A cerimônia é parte de uma tradição maior iniciada por Jesus Cristo, que lavava os pés de seus irmãos, num gesto de humildade e benevolência. Dessa forma, além de nós, todos os outros peregrinos que haviam chegado naquela mesma data, participaram da cerimônia de lava pés. Neste albergue, passamos dois dias, o que foi suficiente para conhecer os principais atrativos turísticos oferecidos em Roma. E em Roma, portanto, foi o ponto final de nossa peregrinação, numa jornada épica onde cruzamos praticamente metade do território italiano, passando por 7 regiões, inúmeras cidades e províncias, e conhecendo pessoas maravilhosas que nos acolheram da melhor maneira possível. Em nosso trajeto, portanto, percorremos 1023 km desde Saint-Oyen, no Vale de Aosta, até a Praça de São Pedro, no Vaticano.

Confira abaixo os vídeos relacionados aos 15 e 17 de maio de 2015, bem como um vídeo com as melhores fotos tiradas ao longo de nossa jornada de peregrinação pela Via Francigena.

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